Sábado
MUDANÇA
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 11/10/2007
vasos comunicantes
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Terça-feira
DEFINIÇÃO
27.08.07
É você deixar seu futuro
ser significativamente influenciado
por outra fonte psicológica.
W. Fernandes
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Sem título.bmp - parte 1
by PH
Crianças. Adoram correr, brincar, e não se preocupam com a vida. Na verdade a maior preocupação era preencher o álbum de figurinhas antes que os outros ou chegar em casa à tempo de ver seu programa favorito na TV. Época que não volta mais. E uma época sem celulares, sem internet e sem TV a cabo para as massas.
Namoro? Beijar na boca? "Blérgh, que nojento! Prefiro jogar bola!" Pensamento típico de um menino de 9 anos. Repito, isso era o que acontecia antigamente. Daí rolava brincar de esconde-esconde, corre-cotia ("...na casa da tia, corre cipó, na casa da vó..."), pega-pega (não é nenhum codinome para alguma brincadeira ilícita, tratava-se apenas de correr um atrás do outro e tentar tocar na pessoa, para que ela te ajudasse a tocar nas outras pessoas, até que não restasse mais ninguém) ou estátua (saudosa brincadeira onde a molecada cantava "panetone-tone-tone, quem mexeu, saiu, fora do Brasil... estátua!") com todo mundo misturado, meninos e meninas. E sempre tinha aquele grupinho de meninas que criava caso e formava casaisinhos entre o grupo. Chegavam até a segurar um menino e uma menina pelos braços e fazê-los ficar perto um do outro, contra a vontade, com o coro de "beija! beija! beija!".
Mas numa dessas brincadeiras pegaram duas pessoas que se gostavam de verdade. O menino tinha uma paixão pela menina há um ano, quando se conheceram. Ela havia se transferido para o colégio vindo de outro Estado. Chegou no meio do ano letivo, mas não teve nenhum problema aparente de adaptação. E ela aparentava nutrir algo pelo rapaizinho. Porém, não demonstrava com clareza, talvez esperando que esse tipo de atitude viesse dele.
Ao final de um ano letivo, ele resolve ir falar com ela. O ano letivo seguinte teria algumas mudanças, e uma das mais significativas seria a mudança de horário para os dois, e a provável mudança de sala, após alguns anos estudando na mesma. Era a deixa para que ele falasse com ela. Porém, algumas coisas na vida são inexplicáveis, e após soar o sinal que determinava o final da aula, a menina sumiu. Evaporou como se jamais tivesse existido. O garoto não acreditava, e decidiu ir até a rua onde ela morava, que era próxima a do colégio. Mesmo sem saber o número da casa, ele foi. E se deparou com um pesadelo: o sonho da primeira namorada esvaiu-se como um gelo derretido debaixo de um sol escaldante.
O destino, porém, parece sinônimo de uma palavra: ironia. Dois anos depois, ele novamente se deparou com a moça, agora estudando juntos na mesma sala. Mas aquela proximidade toda não existia mais. Parecia haver um certo desconforto quando um estava na presença do outro. E isso se seguiu até o momento em que ele, praticamente um rapaz, foi falar com ela. Sim, era o sinal de que as coisas poderiam voltar a ser como antes, e enfim, ele poderia chegar na cara do destino e dizer "Agora sou eu quem dá as cartas por aqui!".
Ainda assim o rapaz não tinha coragem de se declarar "face-to-face". Preferiu o modo romântico da época: uma carta. E nada melhor do que o velho truque de emprestar o caderno e dar um jeito de enfiar a carta no meio dele. Ela tinha faltado no dia da aula de história. E como o caderno era só daquela matéria, não teria problemas em emprestá-lo.
Em questão de uns dois ou três dias, ela devolve o caderno. Ele não demonstra ansiedade, mas seu coração pulsa rápido. Sem que ela perceba, ele abre o caderno e vê uma carta lá no meio. Ele não pensava em outra coisa a não ser chegar em casa o mais rápido possível para ler a resposta. E por que não ler na escola? Foi algo que simplesmente não passou pela cabeça dele.
Era uma noite de quarta-feira. No rádio, o jogo entre São Paulo e Araçatuba pelo campeonato paulista, narrado por José Carlos Guedes, um dos narradores secundários da rádio, porém muito competente. Ele abre a carta, e o início dela tem o mesmo efeito de um tiro no coração. "Gosto muito de você... mas como amigo!"
O restante da carta relatava o que é de praxe: motivos e mais motivos pelos quais a resposta dela fora negativa, porém tentando se fazer entender de que a amizade entre os dois era algo extremamente importante para ela. E junto à carta, um cartão da torcida Independente. Mas antes que seja dito, ele não nutriu nenhum ódio ao SPFC por causa disso.
Era o ponto final na história. Na verdade, por algumas vezes (talvez duas), ele tentou argumentar. Mas sem sucesso. E meses depois, ela inicia um relacionamento com um dos seus melhores amigos. Proposital? Ou seria o destino novamente rindo na sua cara? A única coisa que ele sabia era que o rapaz que estava com ela não sabia como tratá-la da devida maneira.
O ano terminou, e a garota foi embora. Sem despedida. Sequer um "até o ano que vem". Uns disseram que ela havia se mudado para outra cidade. Outros disseram que ela tinha apenas se transferido de colégio. O fato é que o garoto já não queria mais saber dela. Mais por raiva da situação do que por outra coisa.
E os anos se passaram. Cinco, dez... talvez uns quinze anos. Pensamentos mudaram, amores vieram e se foram. Tudo mudou, não só com ele, mas com o mundo à sua volta. E num desses acasos da vida, navegando pela internet, ele reconhece um nome em meio à milhares. Ele busca maiores informações à respeito, e parece não acreditar no que vê. Aquela garota. Era ela mesma. Agora mulher. Fotos provam que seu rosto continua o mesmo. Não tinha mais dúvidas: era ela mesma!
Toda a história veio à tona. Pensou em como seu comportamento fora covarde, mesmo ciente de que era apenas uma criança. Pensou em reparar o caso entrando em contato com a moça, mesmo com indícios de que ela estava namorando, fato este que o fez ficar preparado para qualquer tipo de resposta.
E entrou em contato. E obteve uma resposta.
CONTINUA...
Sobre P.H., acesse: http://www.fotolog.com/universoph
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O POETA ALIENADO
22.08.07
Tudo o que eu quero ainda não
descobri.
Sei que quero,
pois todos querem tudo,
então,
de certo,
também hei de querer
coisas e coisas,
só ainda não as descobri.
A ânsia
em ver o mundo se abrir
como uma mexerica
ante a força bruta dos dedos que perfuram
da crosta
até o núcleo
e, como alavanca
a parte em duas para o bel-prazer da glândulas
degustavas...
queria conhecer meus vícios
meus prazeres e minhas fraquezas
cometer meus pecados de gula e luxúria,
as ganâncias a que tenho direito
e acredito fazer jus.
Mas,
como não parece ainda ter chegado a minha hora,
passo a vida a observar,
com certa estranheza, acrescento,
como as pessoas agem por impulso
e reagem a estímulos,
sem entender lá muita coisa...
W. Fernandes
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 11/6/2007
vasos comunicantes
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Quarta-feira
TERNURA
Num sei que idade tenho, não, autoridade. Quando meu pai matou minha mãe depois de ter visto ela putando pra botar mais grana dentro de casa, eu era pequeno. Só sei que ainda devo de ser menor, quase nem tenho pêlo direito. Meu pai matou ela de paulada, depois de ter encontrado uma caixa-de-sapato cheia de camisinha, atrás do fogão, ela devia de usar pra num pegar nenhuma bicheira na boceta... Matou ela só depois de me acordar pra mim ver o serviço, disse que era pr’eu aprender a como se livrar a pau e sangue dos chifres. Depois... depois ele saiu feito doido no meio da rua... E daí, daí eu num vi mais ele, não. Me disseram que já morreu, me disseram que já matou mais gente. Duvido não. Do jeito que ele endoidava depois de umas quatro doses de cachaça, deve é de ter matado meio mundo e depois ter mesmo é de se matado. Meu pai era doido. Minha mãe levava vida de puta, mas era mulher direita, cuidava d’eu. Foi ela quem me apelidou de Neno, mas meu nome mermo é Nazareno... Que nem Jesus. Só que Jesus é o filho de Deus, né mermo? Já eu... Eu sou filho do Tonho Loucão, o corno que matou a rapariga da minha mãe. Mas ele sabia, Seu doutor... Meu pai sabia que gás-de-cozinha não cai do céu, não... O gás sai do meio das pernas de quem dá o rabo pra todo mundo pra não ter que passar fome. Acabei indo morar com uma vizinha que me botava pra pedir esmola junto dos filho dela. Como eu era o mais pequeno, ela me batia e tomava o meu apurado, daí, o senhor já sabe, né? Quem não banca, não come. Passei foi tempo ainda morando no barraco da Creuza... Até que um dia me cansei de dormir com fome e acordar com o espinhaço lambuzado de cinto e paulada... Com um caco de vidro, abri um talho na cara do pirralho dela que era do mesmo tamanho d’eu e depois sumi no mundo. Até hoje aquela égua deve esperar que eu volte pra me dar na cara o troco do meu mal-feito. Volto não, moço. No dia que eu sangrei as fuça do Uéslei, eu vi que ia ter que me virar na rua, por minha conta. Já comi gringo, já dei minha bunda pra bandido e num sei nem dizer pro senhor se foi ruim ou se foi bom. Devem dizer por aí de mim o que diziam do meu pai... Devem me chamar de Neno Loucão, o filho de corno com puta que cortou o filho da Creuza.
Emerson Braga
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 10/31/2007
vasos comunicantes
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Comeu
Caetano Veloso
Ela comeu meu coração
Trincou
Mordeu
Mastigou
Engoliu
Comeu
O meu
Ela comeu meu coração
Mascou
Moeu
Triturou
Deglutiu
Comeu
O meu
Ela comeu meu coraçãozinho de galinha
Num xinxim, ai de mim
Ela comeu meu coraçãozão de leão
Naquele sonho medonho
E ainda me disse que é assim que se faz
Um grande poeta:
Uma loura tem que comer seu coração
Não! Eu só quero ser um campeão da canção
Um ídolo, um pateta, um mito da multidão
Mas ela não entendeu minha intenção
Tragou
Sorveu
Degustou
Ingeriu
Comeu
O meu
© Editora Gapa
62527134 BRMCA8400161
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http://sonhosecliches.blogspot.com/2007/10/fbulas-fabulosas-o-retorno.html
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Legado
*Legado. Do latim, Lëgätum.
Uma vez um jovem me procurou. Não lembro mais o nome dele, faz tanto tempo que nomes, lugares, até mesmo alguns fatos se perdem na vastidão inefável da memória. Mas lembro em especial desse dia.
Ele me procurava com algum problema, algo a ver com os deuses. Nunca fui muito com a cara deles, apesar de eu mesmo seguir as regras deles. Obediência e devoção são coisas completamente diferentes. Havia se apaixonado por uma deusa. Não qualquer deusa. E tampouco a mais lugar-comum delas. Ele havia escolhido uma em especial. Uma que não desejava outra coisa senão a liberdade.
"Dê a ela seu pequeno grande coração". Soou a melhor venda de segunda-mão de um conselho que eu jamais consegui na minha vida. Apertei sua mão, e voltei para os meus afazeres, alguns deles muito longe dali. Ele deve ter me odiado nos últimos instantes de sua vida tal como a conhecia, enquanto a adaga rasgava carne, pele, ossos e cartilagens, extraindo-lhe sua matriz de vida, em oferecimento à deusa. Arrependeu-se amargamente de tomar ato tão impulsivo, apaixonado e inconseqüente. Vivendo o resto da eternidade uma não-existência, de mera contemplação de tudo o que o cerca.
Falo isso de cadeira, agora que posso finalmente olhar para trás com um pouco de paz de espírito.
Outra deusa, outro lugar. Nomes não são convenientes. Nunca foram, apenas estreitam uma situação que pode ser geral. Entretanto, as coisas saíram um pouco do comum. Deveria, como alguém que não sabe o lugar que deve tomar nos planos do Universo, viver em completa espera. Não a espera da resposta que tanto sonhava. Mas à espera de alguém que pudesse me render. Alguém para quem pudesse passar minha experiência, nem que fosse um único conselho.
Nos séculos dos séculos que vivi até aquele dia, contemplei o Homem e tudo o que criava. E o que criava para destruir. E o que destruía para criar. Cada vez mais, não achava qualquer coisa que me desse uma esperança de um dia poder voltar a dormir. Pois não dormia mais desde aquele momento em que ela, dos céus, arrebatou parte de mim. Jovens e velhos, oleiros e reis, costumavam perguntar o que achava disso e aquilo. Todos uns perdedores para mim. E aquela seria a minha sina. Até aquela manhã, naquele bosque, quando o rapaz queria saber como conquistar o coração de uma deusa.
Ensaiara aquela fala tantas vezes, que não sabia mais se daria certo. E no fim, acabou dando. Naquela tarde, o Universo se equilibrou para mim novamente. Ele tinha a esperança. A deusa tinha sua liberdade. E eu tinha minha primeira noite de sono.
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André Diniz é jornalista, contista e analista sociopolítico da região do Vale do Paraíba. Possui um blog onde publica seus textos ficcionais e resenhas culturais: www.thecokeinc.blogspot.com .
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 10/24/2007
vasos comunicantes
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Sexta-feira
LIBIDO
Esse é apenas mais um conto sobre o poder da foda.
Voltei de ônibus pra casa com uma expressão rasgada de riso na cara que ninguém compreendia. Me lembrava da frase do Lopes:
"Tá foda comprovar renda e gastos nesse país. Putas não dão recibo!"
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Dormi até duas da tarde e fui despertado pelo telefone. Era o Lopes:
"O que você quer, Lopes? Eu te disse pra me ligar tão cedo só se fosse pra me chamar pra uma orgia romana..."
"É melhor que isso, cara! Vem pra cá agora!"
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Cheguei na casa dele com uma camisa vermelha florida, ao melhor estilo surfista decadente. Bermudão, óculos escuros escrotos de lente azul e chinelão de dedo. Quando entrei, me senti meio mal. A família do cara estava inteira lá trajando luto. Havia um caixão no centro da sala, e o próprio Lopes, um porra-louca de marca maior, naquele dia estava usando terno.
"(Sussurrando) Porra Lopes! Um velório? Foi pra isso que você me chamou? E nem pra me avisar! E quem é o morto?"
"(Também sussurrando) É meu tio Alberto, cara. Faleceu ontem de noite. Era um cara meio isolado na família. Foi um custo reunir essas minhas tias aqui" - apontou discretamente para três velhinhas com cara de mexicanas, todas de preto e rosto impassível.
"Tá, e no que eu posso ajudar? Você tá precisando de alguma coisa?"
"Sim. Quero que você me leve pra Jundiaí mais tarde..."
"Fazer o que lá?"
"O velho me deixou uma carta. Não sei porque ele deixou uma carta pra mim, talvez seja por eu ser o único na família com menos de 50 anos... E você não vai acreditar no que ele me deixou de herança..."
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Cinco da tarde deixamos o velório na casa do Lopes e fomos no carro dele pra Jundiaí. Ele queria que eu dirigisse porque a carta dele tava vencida já há uns dois meses. Eu queria saber que raio de herança era essa, mas ele disse que eu veria com meus próprios olhos. Chegamos em frente a um sobrado, perto da estrada, com uma placa escrito "Boate Libido".
"Essa não! O velho te deixou um puteiro?!?"
"Você acredita nisso?"
"E o que você vai fazer?"
"Não sei, por enquanto vamos entrar e conhecer o estabelecimento!"
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O lugar era pequeno. No lounge havia uma mulher robusta, de cerca de quarenta anos. Ao nos ver, dirigiu-se a nós:
"Você é o Lopes?" - disse para mim.
"Não. É ele."
"Ah, prazer Lopes! Seu tio falava muito de você!
Nada fazia muito sentido. Porque o tio falava muito dele se, segundo o que dizia o Lopes, o contato entre os dois se restringia entre alguns encontros de família quando o Lopes era guri? Então a mulher disse:
"O Alberto sempre falava o quanto você era inteligente. Uns dias antes de morrer mesmo ele estava lembrando do dia em que te ensinou a amarrar os cadarços dos sapatos..."
"É verdade, foi ele que me ensinou... nem lembrava disso..."
E então ela nos levou para conhecer a casa. Num quarto, duas meninas dormiam. Uma delas era muito bonita.
"Qual é o nome dela?"
"É Gi."
"Gi o quê? Gisele, Gislaine?"
"Não sabemos. Só sei que é Gi!"
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"E então?"
"Não sei, cara. Tô pensando em assumir o negócio".
"Você tá de brincadeira, Lopes! Vende essa porra! Duvido que valha alguma coisa, mas vende...Não tem lógica você largar a firma de informática pra trampar num negócio que você só conhece como cliente..."
"Meu, quem sabe isso não é um sinal dos céus? Meu tio ter deixado a boate justamente pra mim?"
E de repente o Lopes começava a só se referir ao lupanar como "boate". No caminho de volta ele já começava a fazer planos:
"Vou investir uma grana. Mandar reformar aquilo lá, arrumar umas meninas novas, ajeitadas. Se bem que até que tem umas carninhas legais por lá..."
"Quem? A cafetina gorda?"
"A Gi. As outras..."
Calou-se um instante. Depois, como se tivesse tido uma idéia, me disse:
"Preciso de um sócio."
"Não sei quem vai ser o cretino..."
"Você!"
"Ah, pára de sacanagem, Lopes! Tenho cara de cafetão, caralho?"
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Muito havia para se fazer quando voltamos à Jundiaí. A Boate Libido estava com as instalações todas comprometidas, literalmente caindo aos pedaços. Mas apesar de tudo, tinha certa fama na região. Era frequentada por gente excêntrica, gente de passagem pela cidade, homens e mulheres de perfil exótico. Sim, muitas mulheres vinham pra Libido comer as meninas. Não eram todas as putas que topavam, mas ninguém nunca ficava a ver navios na casa. Entrei no negócio à contragosto. Alguns argumentos do Lopes acabaram me convencendo. Um foi o de que eu poderia ter lucro. Outro foi de que, me dando metade do puteiro, ele quitava as inúmeras dívidas que tinha comigo em todos aqueles anos de amizade. Eu disse a ele que pra quitar as dívidas comigo, só se ele me passasse o Bahamas. Enfim, acabou que embarquei na loucura. Não precisaria ir à Jundiaí sempre. Bastava manter contato com a cafetina gorda, Cleide, uma espécie de gerente da casa. Mulher de confiança do Tio Alberto, braço direito dele em tudo. Até para as punhetas, segundo ela dizia quando bebia demais. Aceitei os termos. Subi pra um dos quartos pra dormir um pouco.
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A marca dos dedos da minha mão estava nítida, bem marcada, avermelhada na bunda de Gi. Nádegas arredondadas, que faziam sucesso na casa. Eu mal tinha assumido o negócio e já estava comendo a mercadoria. Tava na cara que não ia dar certo. Melhor seria, desde o começo, ter mantido relações estritamente profissionais com as minhas funcionárias. Mas puta que pariu! Eu tinha um puteiro! Ter um puteiro e não transar com as putas é como ter uma franquia do Mc Donald's e nunca ir lá beliscar umas batatas e hambúgueres. Em todo caso, eu estava decidido a participar o menos possível da vida do meu estabelecimento. O Lopes que se virasse com as pepinos e apenas me posicionasse das coisas. Naturalmente não foi assim.
Passada uma semana, resolvi que tinha que ir lá para ver como estavam sendo feitos os consertos nas instalações elétricas. Ora, as meninas tinham reclamado que o chuveiro parava de esquentar no meio do banho. O Lopes parecia já ter desencanado um pouco de tudo, passada a euforia inicial. Ele sempre fora assim, um aventureiro que cansa rápido do brinquedo novo. Fui, inspecionei tudo, comi a Gi e voltei pra casa.
No meio da semana, saí do trabalho, peguei o carro e fui pra Jundiaí. Era loucura dirigir no meio da noite, na estrada escura, no meio de uma semana corrida de trabalho? Era. Eu sabia que era. Mas precisava ver como estavam as coisas por lá. Será que os pedreiros arrumaram as fundações? E as meninas, como estavam se virando nesses dias em que a casa tava fechada? Precisava cuidar de tudo, agora eu tava envolvido no negócio. Cheguei e resolvi tudo que havia para resolver. Como já estava ali, pra não perder a viagem, comi a Gi. No dia seguinte inventei uma desculpa pra não ir trabalhar e passei o dia na Libido, resolvendo problemas. Quer dizer, essa era a intenção. Mas olhei para a Gi deitada na cama, dormindo. Ela era especialmente tentadora. Um rostinho infantil num corpo em ebulição, com todas as transformações de seus dezessete anos. Entre uma ordem e outra a dar para os pedreiros, eu comia a Gi. E assim passei a semana em Jundiaí, pouco me fodendo para o meu emprego. Naquela altura, talvez ex-emprego.
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Arriei meu carro entre tantas viagens de São Paulo para Jundiaí e vice-versa. Depois que fui demitido, resolvi me fixar por lá. O Lopes achou que eu tava louco. Entendeu o motivo apenas quando Cleide lhe disse que Gi e eu estávamos tendo um caso. Ele não sabia se me advertia em relação aos perigos e limitações de um relacionamento com uma prostituta, se tirava um sarro de mim, que sempre fora o certinho da turma, ou se acabava com aquilo de uma vez. Dividido entre os 3 sentimentos, ele deixou tudo como estava, pensando que aquilo era uma fase minha e que logo eu cairia na real.
Mas a única real que existia era o gozo que eu sentia estando com Gi, comendo ela, vivendo ela. Passei, sem perceber, a inverter as coisas. Antes ia ao puteiro pra resolver os problemas e comer a Gi. Agora ia ao puteiro pra comer a Gi e, eventualmente, resolver os problemas. Eu nunca fora bom administrador, além de tudo. Como resultado, aos poucos as coisas começaram a desandar. O puteiro começou a falir. As melhores putas foram saindo. Terminamos eu, Cleide, Gi e mais 4 meninas na casa. Desses, só as 4 meninas faziam programas. Gi não fazia mais. Sem querer, eu a tinha tornado minha exclusiva.
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Lopes apareceu na boate e estava puto. Percebera que eu fodera com o negócio. Decidiu vender o puteiro. Me opus.
"Vou vender assim mesmo. Isso aqui tá me fodendo totalmente"
A princípio tentei convencê-lo a não vender. Inutilmente.
"Você não pode vender! Eu não quero! Sou dono dessa merda também".
"Então vendo a minha parte. E tô saindo fora".
Xinguei de todos os nomes. Babaca, viado, pau-no-cu, covarde. Ele me disse que eu estava fora de mim, que tava enfeitiçado. E eu que me fodesse sozinho. Saiu.
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Passados alguns dias, chegou o comprador da Libido. Quis conversar comigo, fazer um acerto. Me recusei. Não ia vender minha parte e não tinha dinheiro pra comprar a dele. Era uma fodeção aquilo. Até que ele me mostrou o contrato. O filho da puta do Lopes tinha vendido a boate inteira pra ele. Tinha me engambelado quando assinamos contrato. Eu não era dono de porra nenhuma, sócio de porra nenhuma. Tinha que sair da casa agora e não ia levar nada. Tinha que deixar as putas. Tinha que deixar a Gi.
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O cara chegou numa sexta chuvosa, decidido a me expulsar. Tranquei tudo e me recusei a abrir. Ele ameaçou chamar a polícia. Abri a porta, ele entrou. Eu tinha um revólver, que comprei porque achei que deveria ter, na qualidade de cafetão. Eu tinha um revólver. Ele era um homem gordo, de nome Santana. Eu tinha um revólver. Ele não tinha um revólver. Ele era um pobre coitado. Eu tinha um revólver. Ele não tinha mais vida.
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Apenas a Cleide e Gi me ajudaram a esconder o corpo. Gi sem nada dizer, inteiramente submissa a mim. Cleide horrorizada, achando que eu tinha pirado. As meninas todas já tinham saído. O puteiro já não funcionava comercialmente. Mas transava-se ali. Eu comia Gi pelo máximo possível de horas nas vinte e quatro horas de um dia. Quando faltava dinheiro, Gi saía para fazer alguns programas e voltava com o suficiente para comermos. Fez isso umas 3 vezes. Na quarta vez fui atrás dela, peguei o cliente e dei-lhe uma surra que o deixou desacordado. Só depois de já ter levado Gi pra casa e transado com ela é que me dei conta do que tinha feito. Decidimos que ela não faria michê nunca mais.
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Cleide gritava, berrava, urrava. Tinha entrado numas. Queria sair. Eu disse que não, que era perigoso. Sabia que ela era fraca, que estava amedrontada, que podia me denunciar à polícia.
"Seu filho da puta! Todo mundo na cidade já sabe o louco que você é! Logo logo a polícia vai baixar aqui no Libido. A gente tá fodido!"
Ela veio pra cima de mim. Ia sair. Eu tinha um revólver.
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Foi difícil me desfazer sozinho do corpo gordo e flácido da velha cafetina do Tio Alberto. Repugnou-me fazer Gi participar do procedimento. Ela tinha estima por Cleide. Acalmei-a depois, quando voltei à Libido, comendo-a.
Então me dei conta que, àquela altura, a polícia iria me procurar. Tínhamos que sair da Libido. Arrumamos as coisas para fugir, mas antes de sairmos, senti vontade de comer Gi ali pela última vez. Então a comi. E depois comi de novo. E passamos a tarde toda fornicando, esquecendo-nos de nossa necessidade de desaparecer dali. Quando eu já estava extenuado, bateram na porta. Era a polícia. Eu quis resistir, mas senti-me sem forças. Gi tomou-me a arma. Quando os policiais arrombaram a porta e entraram, ela atirou. Acertou em cheio o primeiro. O segundo disparou contra ela. Ela caiu ferida de morte ao meu lado. Senti que minhas forças foram restituídas. Apanhei a arma e atirei seguidamente. Vi policiais caindo ao mesmo tempo que minha visão escurecia. Era evidente que eles também haviam me acertado, embora eu não tivesse sentido nenhuma dor. O que sentia era que tudo estava sumindo, o chão se desfazia e aos poucos os gritos raivosos à minha volta foram ficando abafados como se eu estivesse entrando num túnel cuja saída dava no fundo do mar. Aos poucos nada mais havia. Apenas Gi e eu. Apenas eu comendo Gi eternamente num quarto escuro da Libido.
FIM.
Rafael Gimenez - 17/10/07
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 10/19/2007
vasos comunicantes
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Terça-feira
TOTENS COLOSSAIS
Em um totem
foi nisso que lhe transformei,
como os da ilha de Páscoa.
Seus veneradores
não levantaram palácios
não pensavam em conforto
para o corpo,
mas moldaram e ergueram
toneladas de pedras
ainda não descobrimos como,
em homenagem ao amor,
à idolatria
para encontrarem, enfim
a paz de espírito.
(aos habitantes de cabanas que edificaram totens
colossais).
21.08.07 - W. F. S
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TRECHO DE SANGUE MORTO
Um Livro de Emerson Freitas Braga
Reconheci-o no mesmo instante em que o vi. Parecia desajeitado, tímido, incomodado com a presença dos outros visitantes no Museu de Hofburg. Sua aparência esquálida revelava que ele possuía pulmões muito sensíveis, talvez por isto ele estivesse tão deprimido, devido ao intenso frio do dia, anunciando que o outono se aproximava. Toda a sua figura irradiava fracasso, pobreza de espírito, preguiça e inoperância. Não pode ser ele, pensei. Porém, eu jamais havia me enganado, deveria ser aquele infeliz mesmo o meu Enforcado. Ainda olhei ao meu redor, procurei sentir as outras pessoas, mas nenhuma delas despertava-me nada, somente aquele sujeito magro e maltrapilho parecia soprar em meus ouvidos: Enforcado! Enforcado! Mantive-me tranqüila e aproximei-me dele para senti-lo sem maiores interferências, daí então aconteceu algo extraordinário. Um guia pôs-se a falar em voz alta para o seu grupo a história da relíquia que ele estava apresentando, contou que se tratava da lança com a qual um centurião romano havia trespassado o tórax de Jesus Cristo, a Lança de Longinus. À peça – talvez na tentativa de brincar com seus acompanhantes – o homem atribuiu características mágicas e ainda falou que aquele que a possuísse e desvendasse os seus segredos, seria capaz de mudar o destino do mundo. Repentinamente, senti uma energia indescritível emanando daquele que o meu instinto julgava ser o Enforcado, seu corpo irradiava torrentes de cobiça, ambição, doentia avidez por riquezas, honrarias e poder. Assim que o guia conduziu seu grupo para prestar informações sobre um outro artefato, voltei meu olhar para o semblante em brasa do sujeito tacanho que em segundos transmutara-se em um espetáculo de luzes e cores que eu jamais havia visto nem mesmo nos rituais da Ars Magna, vi-o então imerso em profundo transe, em si mesmo afogado! Não havendo mais dúvidas de que aquele realmente era o homem que eu procurava, recitei quase sussurrando um mantra para que ele abandonasse os estados alterados de sua mente e retornasse à normalidade. Como se estivesse acordando de um sonho, ele olhou-me banhado em suor e trêmulo, perguntando-me:
_ O que ocorreu-me, senhorita?
_ Ainda nada de importante. Mas posso ajudar-te a mudar isto.
_ Eu a conheço?
_ Não, Adolf.
_ Então, por que a senhorita me chamou assim?
_ E como eu deveria chamar-te? É este o teu nome, não? Adolf, Adolf Hitler?
Mais sobre o autor: http://livroalcateia.blogspot.com/
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UM HOMEM
“Você não sente vontade?”, ela grita.
“Nem tenho desejo, nem esperança, nem fé, nem medo. Por isso ninguém pode me fazer mal. Ao contrario do que o velho disse (“a esperança é uma espécie de libertação”), a falta de esperança me libertou.”
“ Eu te odeio!”
_FONSECA, Rubem. Romance negro. Companhia das letras, pág.: 47-48 da 1° impressão.
Quando a noite caiu, ele cai também. Quando a sol desce seu instinto humano se eleva. Recolhe-se num canto e espera a primeira femia passar. Bufa. Sempre assim... Maldição?... Masculinidade.
Era olhos de basset na noite fria da capital.. Aflito, conta noite por noite, quantas já ficou sem pensar em amor, em amar, tenta ter os breves e fúteis prazeres e sair sem perguntar nomes. Mãos lisas no bolso seco de capital. Esfrega tentado espantar o frio, que corre mais não passa. Olha impaciente, está no começo de uma gripe. Procura. Do nariz escorre muco, o lenço é a manga da blusa. Continua a passos lentos, como sempre andou, sempre (só) andou para descontrair. Coração em busca do pecado capital.
Na esquina aparece um sobretudo. Fuma. É homem. Abaixa a cabeça.
O céu não tem lua. Sabe que existem estrelas, mas não aparecem, talvez não se dêem conta de sua importância. Pessoas também lhe fazem isso. Mas se... Rompe a linha.
Está parada. O coração sai do stand-by, frenético. Transpira. Aperta o passo.
Para perto, olha para baixo.
-Quanto é?
-Você tem lugar?
-Moro a duas quadras...
-25. Tem camisinha?
-Não
-Então é 27 cruzeiros.
-Vamos?
-Pague adiantado
Paga.
Enquanto ela entra na porta pra levar o dinheiro, dá uma olhada ao redor, impossível alguém lhe ver ali, se encolhe na blusa, está deverás frio.
-Vamos?
Seguem andando, olhando sempre para baixo, imagina quem seria aquela. Teria vida? Nome? Filhas? Família? Safadeza? Cafetão? Frio com aquela mini saia? Ela acende o cigarro e tem um ataque de tosse que dura quase um minuto. Pára esperando-a . Seu coração está esmagado por duas mãos de braços infinitos.
.
-Quanto tempo costuma demorar isso com você?
-Uns quarenta... cinqüenta minutos quando rola boquete sem camisinha ou anal, mas ai é 5 mais caro...
-Tudo bem.
Ela, nua, se deita com as pernas já abertas. Retira da bolsa um relógio, que coloca no pulso. Ele se encolhe, deita no colo dela e chora, silencioso, um intercalado de soluço e fungadas de nariz. Frases indecifráveis entre baba e pelos pubianos.
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 10/9/2007
vasos comunicantes
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Sábado
Helium
“Silencio... vazio.”
- Escuta...
...nada...
Somos um átomo
unidos
e vagando no vácuo...
temos o poder
da destruição completa
na falta do “nós”.
Ribeirão Preto - 04.08.07
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Te como ainda!
Tomou-se de desejo por ela desde o primeiro dia. Quando entrou no escritório e deparou-se com aquela criatura loira, cheirosa, luminosa em seu vestido florido, sentiu que não teria vida fácil. Ela tinha na face o ar de mulher determinada e feminista. Era deliciosamente curvilínea e dominadora.
Ele era tímido. Pouco comedor. Sentiu-se retraído, oprimido. Iniciaram o trabalho em parceria e ele demorou a soltar-se. Ela tinha um jeito claro de olhar-lhe nos olhos, interrogando seus pensamentos. Exigia que ele se entregasse plácido, inteiro, sem hesitações nem contramedidas. Aos poucos ela foi dominando-o. A coisa foi tão bem urdida que, em pouco tempo, já o tinha cativo. Açulava-o com gracejos, confidências íntimas. Contava ao pobre coitado sobre o modo como rolou na cama com o noivo na noite anterior. Ele tentava manter-se calmo. Tomava duchas frias, se resolvia sozinho.
Um belo dia, porém, não pôde mais se conter. Ela debruçou-se levemente sobre o balcão, pretextando analisar um documento qualquer. Ele aproximou-se lentamente, encorajando-se a praticar a ação mais ousada de sua vida. Enfim chegou-se, o coração batendo a vinte mil por hora. Encoxou-a. Ela teve um movimento de espanto que não durou muito. Passou à injúria. Que direito tinha ele de fazer aquilo? Estava louco? Ela tinha o poder de demiti-lo, aquele cafajeste!
Ele, que sempre fora um zero à esquerda no que se referia ao conhecimento da alma feminina, teve então seu lampejo de esclarecimento. Percebeu que ela blefava. Viu no fundo dos seus olhos que ela queria que ele prosseguisse, que o jogo continuasse. Covarde por natureza, ele teria recuado ao grito se não tivesse notado essas sutilezas. Como notou, avançou. Enlaçou sua cintura e notou que ela era macia. Aspergiu de perto seu perfume de flores silvestres. “Ah guria, te como ainda!” O desejo há muito tempo contido enfim transbordou. Como um pianista que passa os dedos sobre o teclado, passeou as mãos pelas costas dela até apalpar-lhe a bunda. Sentiu que ela estava desconstruída, excitada, maluca. Ela gemeu baixo e ele a apertou mais forte. Estavam sós na sala. Ele desabotoou a blusa da companheira de trabalho, soltou o fecho do sutiã. Seios tenros se expuseram aos seus olhos felizes e ele ficou alguns segundos a admirá-los, róseos e lisos, jovens e acolhedores. Acariciou-os enfim, para em seguida não perder mais tempo com sentimentalidades. Virou-a se bruços sobre a mesa novamente, como na posição em que a encontrara. Levantou-lhe a saia, retirou-lhe a calcinha. Já na primeira penetração, ela soltou um grito de espanto prazeroso. Com medo de chamar a atenção, ele enfiou dois dedos entre seus dentes para calá-la. Ele vencera. Ela entregava-se, e entregava-se magistralmente.
As relações entre os dois foram se alterando. Trabalhavam sempre alucinados, acariciando-se por debaixo da mesa. Todo o escritório comentava e eles não pareciam dar importância a isso. No fim do expediente mandavam-se pra algum motel, já se agarrando no estacionamento da empresa. Era como uma cascata, uma coisa que não se podia conter de forma alguma. Ele que sempre fora aplicado, metódico, mostrava-se agora um trabalhador displicente. Ria-se quando lhe chamavam a atenção. Tanto mais não se importava com nada por saber que estava comendo sua chefe e que nada lhe poderia acontecer. Ordem superior achou por bem separá-los, mudando-o de seção. Ele armou escândalo na empresa. Decididamente estava mudado. Mandou o supervisor à puta que o pariu. Foi demitido.
As coisas tornaram-se então mais difíceis. Após a demissão, ela passou a evitá-lo. Argumentava que não mais convinha que eles se vissem. Que ela, afinal de contas, era noiva, e que o noivo já suspeitava. Ele fingia entender, prometia não procurá-la mais. Entretanto procurava e, a cada encontro, eles fornicavam como se não houvesse amanhã. Um dia ele foi esperá-la à saída do escritório, num horário de almoço. Colegas passaram e o cumprimentaram. Tinha virado uma espécie de ídolo entre seus pares. Ganhara o respeito deles. Foram-se e ele estava jubiloso, espírito enlevado e contente consigo mesmo quando a viu saindo. Aproximou-se alvoroçado, apertando-se contra ela. Ela o repeliu. “Está louco? Aqui não!”. Ignorou-a, tentou beijá-la. “Me larga!” Ele teve um movimento de surpresa. Depois ficou tomado de fúria. E de desejo. Jogou-a contra o carro, o olhar possesso. Ela teve medo. Deu-lhe um soco, disparou em direção ao carro e saiu cantando pneus.
Nos dias seguintes ele tentou de todas as maneiras lhe falar, mas ela evitava-o. Não atendia ao celular, driblava-o nos locais públicos. Ele sentiu um nó profundo, um sentimento de traição. Estava doente. Mandou mensagem no celular marcando encontro. Quem apareceu no local indicado foi o noivo. Deu-lhe um soco que deslocou seu maxilar. Apanhou e bateu pouco, pois era destreinado na arte da luta. O outro apanhou uma garrafa de cerveja que estava por perto, quebrou-lha na parede e o ameaçou com cacos afiados. Alguém apareceu e separou a briga. Pessoas foram se aglomerando. “Fica longe dela! Fica longe senão te mato!”
Ele não conseguia mais ficar longe. Precisava dela, precisava daquele corpo de deusa e daquele sorriso safado. Precisava beijar-lhe o clitóris, arrancar-lhe sussurros macios e ávidos. Não podia mais viver sem aquela umidade, aquele calor, aquele prazer e aquele pequeno apocalipse particular.
Revirava-se na cama tendo pesadelos. Pesadelos de uma vida inteira longe dela, ela servindo a outro homem. Passou a não dormir mais, mas os pesadelos o pegavam também na vigília.
Tomou uma decisão desesperada. Foi até a frente da casa dela, gritar, acordar os vizinhos, fazer o diabo. Os noivos que dormiam juntos naquela noite acordaram sobressaltados. A família da moça encolheu-se de vergonha. Decidiram que o mais sensato era que ela fosse ao encontro do homem, para tentar contê-lo. O noivo opôs-se, queria quebrar a cara do infeliz. Contiveram-no e a moça desceu.
Chovia muito e o primeiro sentimento que ela teve, suplantando-lhe o medo e a vergonha, foi pena. Aproximou-se dele e viu que chorava feito uma criança. Deixou-se ficar junto ao homem, acolhendo-o em seu colo, como se recebe um menino que se machucou na rua. Sentiu-se culpada. Mas olhou-o nos olhos e, por um momento, sentiu de novo aquele brilho, aquela avidez, aquele monstro inesperado que devorava os dois. Ele sorriu para ela e eles perceberam que estavam pra sempre atrelados, como dois cães procriando. Uma frase, apenas uma frase. “Te como ainda...”
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O VASO QUE SE FOI
A teoria não me permite
exprimir a falta que tenho
do além mar
se nunca estive além
do aquém,
senão em devaneios indescritíveis,
(inexplicáveis também de mim para mim)
pois são reais como sonhos
que, quando nos julgamos despertos,
temos apenas cacos que tentamos
colar com a lógica...
Mas já não há lógica!
e tampouco existiu o vaso que se foi.
31.07.07
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Créditos:
"Te Como Ainda!" é o primeiro conto semi-erótico de Chico Ximenes. Trata-se de artigo ficcioso e qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Os poemas "Helium" e "Vaso Que Se Foi" são de autoria de W. Fernandes. W. Fernandes é poeta, contista e aspirante a tecnocrata.
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 9/29/2007
vasos comunicantes
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Quinta-feira
"Deixai toda a esperança, ó vóis que entrais" !
É salutar informar que este blog pode ser extremamente prejudicial àqueles que zelam pela ordem arbitrariamente pré-estabelecida, podendo levar seus incautos freqüentadores a desde um sorrisinho de pura malícia até um aneurisma seletivo, capaz de extirpar de seu cérebro apenas os pensamentos tidos como corretos, bons e normais. Todavia, amantes do caos, amásios da desordem, concubinas dos abismos, mancebos das tempestades verbais, ninfas dos ciclones corpóreos, sejam todos bem-vindos à morada dos sátiros e dos faunos, ao espaço público destinado a acolher com carinho todas as diferenças.
Não importa se você é emo, glutão, exibicionista, paranormal, bicha, dominatrix, nerd, macumbeiro, astrólogo, amazonas, bailarino, terrorista, macho-alfa, confeiteiro, sapatão, anoréxica, obeso, transexual, anão, domador, Amélia, músico, limpador de chaminé, ladrão de galinha, tarado por velhinha ou se não usa camisinha... No WC MISTO, você é bem vindo, não APESAR de você ser quem você é, mas, JUSTAMENTE por você ser quem você é.
Chega de separar as pessoas por cor, credo, sexo, status social, poder econômico, estatura, tamanho dos pintos ou cor das calcinhas! Abaixo à ditadura do “SEJA ISTO OU AQUILO”! Apenas, sejamos! Sejamos muito! Sejamos pra valer! Sejamos sem parar! E queiramos! Queiramos sempre mais!
E eles tomam banho juntos! Cirlo PLus
às 9/20/2007
vasos comunicantes
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